Primeiro Dia – Quinta-feira – 23/10/2003:
A viagem foi longa, com muitas paradas e escalas. O Brasil fica muito longe de Dayton, em Ohio. Eu me encontrei com Allen Kong no Texas e nós nos encaminhamos para a Alfândega. Acho que tenho me comunicado com Marcelo há, aproximadamente, um ano, através da internet. Na quinta-feira, 22 de outubro, eu tive finalmente a chance de conhecê-lo. O plano original era ter comigo o grão-mestre Gee nesta viagem. Porém, devido a alguns imprevistos, nossos planos tiveram que ser mudados. Com a mudança de planos para o seminário, nós não sabíamos, realmente, o que nos esperava - Quem estaria no workshop? Quantas pessoas assistiriam? Meu objetivo era primeiramente compartilhar a riqueza de informação da perspectiva do Ving Tsun Museum (VTM), na condição de seu Curador. O Sifu Allen veio representando o grão-mestre Gee, o líder da linhagem Hung Fa Yi Wing Chun. Quando o Marcelo nos acolheu no aeroporto, eu comecei a me sentir mais relaxado. Marcelo e Luciano nos saudaram calorosamente; as coisas estavam tendo um bom começo – um juiz federal (Marcelo) e um Oficial da Polícia (Luciano) nos fazendo uma festa de boas-vindas! Nós, os americanos loucos, precisamos ter os juizes e policiais para manter a ordem ao nosso redor e para nos manter na linha! Antes, o Allen e eu articulamos um plano “B”, para o caso de ninguém aparecer... iríamos à praia por quatro dias seguidos. Nós começaríamos treinando HFY na praia e, se atraíssemos curiosos, faríamos um workshop não-premeditado sob o sol que pairava sobre o oceano.
O Marcelo já praticou Hung Ga e Shaolin do Norte, tendo treinado Wing Chun por aproximadamente um ano. Luciano já praticou o Wing Chun de quase todas as letras (WC, VT, e WT). Estava chovendo quando nós chegamos e, eu não sei do Allen, mas cheguei a pensar, "eu espero que este tempo não permaneça durante toda nossa estadia no Brasil". Mas existe um importante ditado popular chinês que diz: "Para viajantes importantes, as boas vindas são dadas através da chuva". Nós deixamos o aeroporto no carro esporte vermelho do Marcelo e falamos o tempo inteiro sobre artes marciais. Allen adquiriu a sua primeira experiência dos condutores e do trânsito brasileiros. Chegando à casa do Marcelo, nós conhecemos sua bela esposa Paula e o filho, um Power-Ranger de quatro anos. O garoto estava muito ansioso para demonstrar o seu Kung Fu para Allen e para mim. Durante o almoço, nós conhecemos João Santoro D'Amato - com 16 anos de idade, o participante mais jovem do seminário. Depois do almoço, eles nos levaram à área do Mercado do centro da cidade, onde as ruas são muito semelhantes às ruas de um mercado aberto de Hong Kong denominado Rua dos Homens e das Mulheres. Depois, à noite, regressamos para a casa do Marcelo e treinamos um pouco. Nós mostramos para o Marcelo e para João a primeira seção do HFY SNT (Siu Nim Tau da linhagem Hung Fa Yi Wing Chun). Depois do treinamento, ambos concordaram que HFY SNT é muito diferente e que eles sentiam a energia e o poder emanados da estrutura corporal, de forma imediata. Nós também discutimos sobre a realidade tridimensional da luta. Eles ficaram animados ao verificarem a profundidade de HFY SNT.
O dia estava quase no fim. O Allen e eu voltamos ao hotel e decidimos caminhar na praia O nosso hotel era muito agradável e localizava-se entre duas famosas praias do Rio de Janeiro.
Segundo Dia – Sexta-feira – 24/10/2003:
Nós nos levantamos cedo e fomos para a praia. Depois nós reunimos com o Marcelo. Ele tinha um compromisso profissional numa localidade fora do Rio de Janeiro. Nós seguimos de carro por, aproximadamente, umas 2 horas subindo montanhas até chegarmos numa cidade diferente. Neste passeio eu percebi a verdadeira profundidade do “Kung Fu para viagem” do Allen - ele achou uma posição confortável e caiu quase imediatamente numa doce soneca, depois de fitar a paisagem das montanhas. O “Kung-fu para viagem” dele é muito forte e experiente. Marcelo nos convidou para um almoço especial em uma ilha privada cercada por rios. A atmosfera e a comida eram excelentes; as pessoas do Brasil são muito agradáveis e sociáveis. Embora nós não falássemos os idiomas um do outro, utilizamos a linguagem corporal para nos comunicar-mos. Depois que nós partimos, eu falei para o Marcelo que seria agradável ter uma ilha privada assim para podemos treinar. Ele disse que um dia tornaria isto uma realidade.
Depois, na viagem de volta, Allen e eu começamos a meditar (dormir) no carro - descobrindo nas profundidades da viagem as verdadeiras habilidades do Kung Fu. Depois, nos encontramos com mais alguns participantes do seminário, pois ficamos todos no mesmo hotel. O Sifu Saan Lii Yat e o seu assistente, José Eugênio Araújo, da cidade de Fortaleza-CE, que fica mais próxima da Amazônia que do Rio, e o Sifu Márcio Silva, que viajou de São Paulo até o Rio com Alexandre Magno Souza e Regivaldo Escalena, da família Austin Goh Wing Chun. Esses dois Sifus – Saan Lii Yat e Márcio Silva – treinaram com Sifu Leo Imamura, da família Moy Yat. Sifu Saan Lii Yat agora treina e ensina o sistema San Lii Wing Shun (sua versão pessoal do Shaolin Wing Chun) e o Sifu Márcio Silva treina e ensina sob a orientação de Li Hon Ki (um Sifu da família Duncan Leung). Ambos os Sifu’s são praticantes de Wing Chun com muita experiência e nos presentearam com livros e vídeos de sua autoria ou onde tiveram participação.
Uma coisa interessante sobre Sifu Saan é que o livro de sua autoria que ele me presenteou contém muitas informações dos escritos produzidos pela HFY e pelo VTM, traduzidas com suas próprias palavras. O seu Shaolin Wing Chun tem muitas semelhanças com o HFY; ele aprendeu o Shaolin Wing Chun diretamente de mestre Hung Lii. Sifu Saan tem seguido o desenvolvimento do HFY com interesse desde que a linhagem se tornou pública. Ele se indentifica com o HFY devido ao seu conhecimento do Shaolin Wing Chun. Embora o seu livro “Wing Shun, Entre a Lenda e a História” esteja escrito em português, Sifu Saan Lii Yat nos ofertou uma tradução dos primeiros nove capítulos para o inglês. Eu tive chance de ler naquela noite - com suas próprias palavras, ele realizou um bom trabalho ao expressar os conceitos Saam Mo Kiu e Tempo/Espaço/Energia.
Depois daquela noite o grupo inteiro deu um longo passeio na praia. Eu aproveitei aquela oportunidade para demonstrar o HFY SNT e Chi Sim Saam Baai Fut.
Nós fomos jantar por volta de 10:00 daquela noite, num bufê do famoso churrasco brasileiro. Desfrutamos muito o jantar; Marcelo é um bom anfitrião. O grupo tinha uma atitude comum e compartilhava boa conversação e boa comida. Eu, verdadeiramente, senti que eu estava no mundo das artes marciais. Não havia nenhum sentimento de ego, apreensão ou energia ruim - todo o mundo estava aberto e muito amigável. A vida Kung Fu nos deixa fortes e iguais. Nós discutimos filosofia, técnicas e história. Foi bom conhecer como alguns dos participantes do workshop havia iniciado seu caminho marcial. Devido ao dia cheio e ao workshop do dia seguinte, Allen e eu nos recolhemos logo depois do jantar para descansar.
Terceiro Dia – Sábado – 25/10/2003:
O nome do nosso hotel é Copacabana Praia Hotel. Marcelo nos apanhou e nós nos encaminhamos ao local do Seminário. O local era uma escola de Tai-Chi-Chuan – uma das maiores que eu já vi. Com três ambientes e ainda uma estância termal, quarto de massagem e sala para acupuntura. O proprietário, diretor e instrutor é o Sifu Marcos Vinicios Gomes. O seu website podes ser acessado através do endereço www.aficorj.com.br.
Ao todo, havia 15 pessoas participando do workshop. Todos os participantes eram praticantes de Wing Chun, excetuando um Sifu de Tai-Chi-Chuan e outro de Hung Ga. Depois que todos nós nos instalamos, Allen e eu iniciamos o seminário. Primeiro, eu me apresentei como Curador do VTM e mencionei a nossa missão: o enfoque principal do VTM é pesquisar a verdade sobre a história do Wing Chun e interagir, com a finalidade de trocar conhecimento, com as várias famílias derivadas do Wing Chun.
Então, eu discuti a História e entrei em detalhes de como e por que a raiz do Wing/Weng Chun deriva do Templo Shaolin Meridional. Isto, incluindo a prova histórica da interação entre Ming/Qing e as sociedades secretas, juntamente com a árvore familiar do HFY que se localiza no templo Shaolin do Sul, combinadas com as perspectivas Chan do HFY e do Chi Sim. Eu também falei sobre a história pessoal do Grão-mestre Gee e mencionei por que, só agora, ele apresentou publicamente o HFY. Também falei um pouco sobre o Sifu do Grão-mestre Gee e sobre o seu dai-sihing.
Logo eu revisei os Três Tesouros, 10 Sabedorias e Filosofia (Saam Mo Kiu) do Shaolin, e a realidade de Tempo, Espaço e Energia. Nós também discutimos os métodos de Shaolin (Hau Chyun San Sau). Como o Grão-mestre Gee durante o seminário de Phoenix na semana passada, eu usei o Paak Sau para dar aos participantes do workshop uma experiência completa (o San Sau de Hau Chyun San Sau) de Saam Mo Kiu. No processo do Paak Sau, nós começamos a introduzir como HFY é semelhante as ciências dos dias atuais – tudo é preciso e com realidades tridimensionais. O seminário se prolongou atés as 8:00 h da noite.
Meus dois objetivos primários no primeiro dia, eram: primeiro, divulgar as mais recentes informações sobre história do VTM e segundo, prover a compreensão técnica e fundamentos para que os participantes pudessem entender por que Chi Sim e HFY são considerados os únicos dois sistemas do shaolin Wing Chun, hoje – e como eles podem ser comparados aos sistemas de Wing Chun que descendem dos Barcos Vermelhos. Durante o curso do dia, eu demonstrei também formas da linhagem Yip Man.
Allen ajudou de muitas maneiras ao longo do dia, com relação à história do HFY, do GM Gee e da HFY-Kwoon; ele concluiu o primeiro dia com uma introdução à Fórmula do Wing Chun.
Quarto Dia – Domingo – 26/10/2003:
O 2º dia do seminário começou com Allen conduzindo uma revisão da Fórmula do Wing Chun. Isto através da condução da forma SNT do HFY. De lá, a discussão versou sobre a diferença entre SNT e SLT. Nós queríamos que os participantes vissem a perfeição do HFY; assim, nós progredimos através das Duas-linhas do Jong Sau – começando com o Jong, indo para Jaam Jong, então para Faht Ging, e terminando com o exercício das quatro portas. Nós também fizemos Jong Sau com o Leung Yi Man e Bun Yut Ma – junto com Kuen Jong. Nós também mencionamos algumas idéias básicas no Ng Jan Chiu Min Jeui Ying.
O workshop do segundo dia foi muito mais físico. Eu considero este grupo de participantes muito inteligente e composto de artistas marciais muito experientes. Eu posso dizer que muitos dos participantes são Sifu’s de alto nível em Wing Chun; eles aprendem muito depressa, captam as novas mensagens rapidamente e as expressam muito bem.
O seminário terminou com muitas sessões de fotografia, como também com sessões de autógrafos de cópias do livro “Mastering Kung Fu”. Nós almejávamos qualidade ao invés de quantidade para este seminário – e o grupo que assistiu, seguramente, alcançou este objetivo. Foi um privilégio para Allen e para mim, compartilharmos nosso Wing Chun Kung Fu com nossos parceiros brasileiros de uma maneira sincera e aberta. Ao término do 2º dia do workshop, eu senti que atingi meu objetivo nesta viagem: plantando a semente de Shaolin Weng/Wing Chun no Brasil.
O jantar ocorreu em um restaurante da orla marítima – e eu tive a oportunidade de ouvir alguns comentários dos participantes. Quase todos querem aprender HFY imediatamente e já estão falando em ter escolas HFY no Brasil, futuramente. Alguns instrutores nos convidaram para retornar ano que vem – a nós, representantes do VTM e da linhagem HFY. Dois Sifu’s estarão atuando como representantes do VTM no Brasil e, no ano que vem, quando for possível, estarão atuando como representantes oficiais da HFY. Embora este fosse principalmente um seminário da HFY, eu descobri, também, que há muitos praticiantes de Hung Ga no Brasil que podem conduzir os interesses futuros do Chi Sim Weng Chun.
Encerramos a noite com celebrações – o Sifu Márcio Silva nos levou para uma festa onde, o Allen e eu, experimentamos nosso primeiro “clube de massa”, com mais de 1000 pessoas; todas dançando, bebendo e festejando de modo geral. Os brasileiros são excelentes dançarinos e muito amigáveis.
Mestre Benny Meng |