:: Bom dia, hoje é Segunda, 06 de Setembro de 2010 ::       :: Atualizado em 02 de Setembro de 2010 ::


artigos

 

A HistÓria Secreta do Wing Chun: A Verdade Revelada

Também apresentado como “Controvérsias do Wing Chun:
Essa é a Verdade sobre a História do Wing Chun”
 
Por Benny Meng e Alfredo Delbrocco
Tradução: Alex Magnos (20/11/05)
Fonte: Ving Tsun Museum
 

Prefacio

Apesar do mundo não ter diminuído, a vida na Era da Tecnologia da Informação (via mídias como e-mail e internet) tem possibilitado contato e comunicação entre as pessoas ao redor do globo mais fácil e rápido. Conseqüentemente, hoje é mais difícil para a informação e a pesquisa ser reprimida ou oculta, ou ter apenas uma única perspectiva que se exponha. O que é mais importante, isso significa que certos mitos não serão perpetuados. A informação que aponta para as origens históricas do Wing Chun Kung Fu é um desses mitos.

Colocado de forma simples, a verdade crua é essa: o mito da monja Budista, Ng Mui e sua discípula Yim Wing Chun, as supostas fundadoras do Sistema Wing Chun, é apenas isso – um mito. Quando a internet nos trouxe informação mais compreensível, isso trouxe uma luz sobre essa história de Ng Mui e Yim Wing Chun que era meramente uma forma de se ocultar a verdade sobre as origens do Sistema e as identidades políticas dos rebeldes que verdadeiramente o desenvolveram.

Depois de mais de 400 anos, colhemos um grande número de evidências que apontam para a verdadeira criação e evolução do Wing Chun. A questão é: estará o mundo do Kung Fu preparado para isso?

Não há a menor dúvida que essas informações que serão reveladas causarão uma turbulência no meio para dizer o mínimo. Principalmente porque muitos instrutores de Wing Chun ao redor do mundo são “ingênuos”, e não se responsabilizam em transmitir uma romântica e fantástica história do Sistema Wing Chun. Eles contam e recontam uma história que é pouco mais que um conto de fadas.

Uma visão das tradicionais lendas com os olhos sobre a história nos proporciona um ponto de vista mais fascinante. E não menos distante do termo “lendário”... secreto sob as Sombras de Shaolin.

A história recente pode testificar, o Wing Chun foi desenvolvido cerca de 400 anos atrás em uma época de instabilidade civil. Entre 1644 e 1911, os manchus governaram a China, onde 10% da população (os manchus) dominavam os outros 90% (os Han, chineses). Para manter o controle sobre os Han, os manchus governavam com punho de ferro. A agressão e a opressão foram a pedra angular da Dinastia e aos Han foram proibidos o uso de armas ou treinamento de artes marciais. Assim, na tentativa de acabar com essa opressão, atividades rebeldes foram instigadas por mestres de artes marciais que permaneciam ocultos.

Essas atividades foram desenvolvidas rapidamente nos monastérios Budistas, que até então não sofriam qualquer tipo de ameaça por parte dos manchus devido ao respeito à cultura e à religião Budista. Assim, esses santuários Shaolin / Siu Lam eram os lugares ideais para que os renegados se ocultassem – eles simplesmente raspavam suas cabeças e vestiam os hábitos monásticos dos discípulos do Templo. Durante o dia, os rebeldes se protegiam como monges, cantando em coros pelo Templo. Mas à noite, eles se reuniam para formular seus planos para expulsar os manchus.

Há aqueles que insistem na posição de que os santuários Shaolin / Siu Lam não possuíam inclinação política. Eles tentam enfatizar que os ensinos Budistas não permitiriam o suporte a rebeldes e sociedades secretas. Essa é uma posição sentimental e não baseada nos fatos históricos. Líderes religiosos através da história, tanto no ocidente quanto no mundo oriental, exerceram influências políticas e governo desde o início dos tempos. As igrejas sempre abrigaram vítimas políticas que sofriam perseguição de autoridades opressivas. No caso da China, sérios precedentes para esse comportamento de parte dos monastérios já haviam sido estabelecidos cerca de 400 anos antes. Como verificado pelas pesquisas do Ving Tsun Museum, Chu Yun Chueng (Jyu Yuhn Jueng), o homem que liderou os chineses na revolta contra os mongóis e estabeleceu a Dinastia Ming foi ele mesmo um monge Budista.

Quando se encontravam, os revolucionários identificavam-se entre os outros com um secreto sinal de mãos que depois viria a se tornar um cumprimento formal de encontro ou cortesia do Wing Chun. De fato, a tradição do cumprimento de encontro ou cortesia é comum para muitos estilos de Kung Fu de hoje em dia com dois significados. O primeiro significa o reconhecimento dos estilos de origem Shaolin – a mão esquerda simbolizando a união do Dragão Verde (mão esquerda) e o Tigre Branco (mão direita), os animais lutadores dos monges Shaolin.

Na Linhagem Hung Fa Yi (Flor Vermelha da Retidão) de Wing Chun, contudo, as mãos são inversas: a mão esquerda forma um punho e a mão direita uma palma aberta. Isso ainda retém seu significado a Shaolin, mas também se refere à sociedade secreta. Nesse contexto, o punho representar Yat (o Sol) e palma representar Yuet (a Lua). Combinados, esses dois caracteres significam “Brilho” que se lê e se pronuncia como “Ming”. Esse era o nome da dinastia anterior – a que foi deposta pelos manchus que proclamaram em seu lugar a Dinastia “Qing”. Assim, durante o tempo da rebelião, quando um praticante de Wing Chun ou um membro das sociedades secretas saudava uma pessoa apontando para ela um palma aberta sobre um punho, eles estavam dizendo “Restaurar os Ming, expulsar os Qing”. Obviamente, esse não era um sentimento compartilhado pelos manchus.

Pelo final do século XVII os manchus se tornaram conscientes sobre as atividades rebeldes do Templo Siu Lam e seu contínuo desenvolvimento de estilos luta. Assim, eles enviaram espiões (muitos de seus líderes militares) para se infiltrar aos rebeldes e aprender os tradicionais sistemas de punho do Sul como eram ensinado no Templo. Os mestres rebeldes do Kung Fu, percebendo isso, desenvolveram um novo sistema que servia a dois propósitos: primeiro, deveria ser aprendido rápida e eficientemente; segundo, deveria ser devastadoramente eficiente contra os sistemas de luta que já existiam e que os manchus haviam aprendido e ensinavam a seus soldados. Assim, nasceu o Wing Chun.

Com o compromisso de seus espiões, os manchus decidiram eliminar a fonte de toda a atividade rebelde simplesmente exterminando os monges Siu Lam. Assim, o Templo Siu Lam do Sul foi incendiado e destruído.

Extensivas pesquisas realizadas pelo Ving Tsun Museum apontam à geração de herdeiros após a queimada do Templo Siu Lam do Sul. Dentre esses havia um cavalheiro chamado Cheung Ng (referido também como Taan Sau Ng em outros textos). Dessa geração de herdeiros, Cheung Ng é um dos que se pode provar sua existência histórica. Após estabelecer a Associação da Sociedade da Bela Flor (nome público da Sociedade da Flor Vermelha e precursora da Ópera Vermelha) providenciando o treinamento de Wing Chun às sociedades secretas, Cheung Ng foi para o anonimato, desaparecendo dos olhos do público para escapar à perseguição da Dinastia Qing.

Ele foi oculto por parentes distantes, uma família de negócios de Fuk Gin chamada Chan. A Chan Si Sai Ga (família Chan) era rica e próspera. Indiretamente eles queriam ajudar Chueng Ng. Ficando com a família por mais de uma década, Cheung Ng ensinou a família a Ciência Marcial Hung Fa Yi Wing Chun. Esse conhecimento foi preservado pela família por quatro gerações antes que ser ensinada para pessoas de fora da família Chan. Os membros diretos da família Chan nunca estiveram eles mesmos envolvidos com as sociedades secretas, provendo um baixo perfil na história do Sistema do Louvor à Primavera. A última geração da família Chan a aprender a Ciência Marcial foi um sobrinho distante, um líder do mais alto nível das sociedades secretas, Hung Gun Biu. Nos registros Qing bem com nas pesquisa dentro das sociedades secretas chinesas, uma pessoa com o nome de Chan Biu foi registrada como sendo o líder da Sociedade Céu e Terra. Ele foi capturado e executado pelas autoridades Qing. Devido à similaridade dos nomes surgindo em diferentes fontes em torno de uma mesma época, há muitos debates sobre se o Biu da Ópera e o Biu da Sociedade Céu e Terra são a mesma pessoa. De acordo com os membros do clã Hung Fa Yi Wing Chun, Hung Gun Biu foi a 4ª Geração de Líderes Hung Fa Yi Wing Chun e seus descendentes diretos de Wing Chun têm preservado o Sistema através da 8ª Geração com Mestre Garrett Gee e da 9ª Geração com os estudantes da éra moderna.

Foi na quarta geração que a história e a verdade foram separadas e o mito da origem do Wing Chun foi criado.

O Mito de Ng Mui e a Verdade sobre Yim Wing Chun para proteger as identidades dos criadores e perpetuadores do sistema Wing Chun, uma cortina de fumaça foi tecida na forma de uma lenda – a história de Ng Mui e Yim Wing Chun.

A Lenda contava que entre os sobreviventes do massacre de Shaolin / Siu Lam havia uma monja Budista chamada Ng Mui. Acreditava-se que Ng Mui havia sido a única guardiã de uma arte marcial moderna, altamente prática e eficiente desenvolvida dentro do Mosteiro. Dizia também que Ng Mui havia passado seu conhecimento para sua discípula, uma jovem garota chamada Yim Wing Chun. Como Yim Wing Chun ensinou o sistema para outras pessoas, ele passou a ser chamado de Wing Chun. A lenda se espalhou e hoje muitas versões dela existem ao redor do mundo.

Contudo, há três importantes considerações a se fazer em relação à lenda de Ng Mui. Primeira, com exceção da lenda, não há outra evidência de que Ng Mui – tenha existido em seu âmbito como grã-mestra ou fundadora de um sistema de Kung Fu – na há registros, não há documentos históricos – nada. Segunda, seria proibida a presença de uma monja, mesmo só para treinar, em um ambiente de celibato monástico como eram os Mosteiros Shaolin / Siu Lam. Terceira, e talvez a mais importante, depois de escapar de uma situação de vida e morte sendo uma revolucionária, não faz sentido que Ng Mui ensinasse um sistema de luta avançadíssimo a uma garota local com problemas românticos e sem nenhuma conexão com a revolução. Nesse período da história Chinesa, a Dinastia Qing determinou uma forma especial de punição para traidores e rebeldes. Depois de confessar seus crimes o culpado seria executado. Posteriormente, os oficiais Qing caçariam os membros de sua família até a nona geração e os executariam também como traidores. Logo, ensinar uma arte marcial a Yim Wing Chun poria a vida Ng Mui em grande risco.

Observando Yim Wing Chun como elemento de uma lenda, consideramos mais uma vez a importância das sociedades secretas rebeldes. “Yim” pode ser traduzido como “proibido” ou “secreto”. O termo “Wing Chun” referia-se a uma localização geográfica – O Siu Lam Wing Chun Tong (Salão da Eterna Primavera da Jovem Floresta), onde provavelmente os rebeldes praticavam artes marciais e orquestravam suas atividades sediciosas. O uso do termo “Primavera” simbolizava o renascimento da Dinastia Ming e “Eterna” referia-se ao restabelecimento da dinastia que duraria para sempre. Depois da destruição do Templo Shaolin do Sul e seu Wing Chun Tong, os sobreviventes mudaram o caractere “Wing” de “Eterna” para “Louvar”. O termo “Louvar” referia-se ao fato que os revolucionários teriam de espalhar a palavra sobre a revolução depois da destruição de sua base. Assim, “Yim Wing Chun” era na verdade um código, significando (proteger) a arte secreta do Salão do Wing Chun.

Se nós sabemos que a destruição do Templo Shaolin / Siu Lam ocorreu, mas a história de Ng Mui foi só uma distração, a questão permanece: quem eram os reais guardiões do sistema Wing Chun?

 

Surge o Hung Suen

Sabemos que muitos (não os cinco da lenda) monges e rebeldes escaparam ao massacre manchu e que, para auxiliar no sigilo do sistema, o material histórico era passado diretamente do mestre ao discípulo. Assim, os ancestrais ensinaram a dois monges rebeldes Shaolin que sobreviveram à invasão do Templo e eram hábeis a manter vivo sistema Wing Chun. Um deles era um monge da 22ª Geração de Grão-Mestres Siu Lam, Yat Cham Daai Si do Templo Shaolin do Norte. O outro era um rebelde que treinava sob sua orientação no Templo do Sul, chamado Cheung Ng. Fugindo dos opressores manchus, Cheung Ng fundou a King Fa Wui Gun (Sociedade da Bela Flor), que seria as raízes da famosa Companhia de Ópera Hung Suen (Barco Vermelho).

Historicamente, sabemos que a atividade rebelde floresceu na Companhia de Ópera do Barco Vermelho. A Ópera Vermelha era famosa por seus talentosos artistas de drama, expertos em Kung Fu e ginástica, o que permitia a formação de sua própria sociedade secreta para expulsar a Dinastia Manchu. A companhia provia o refúgio ideal para os rebeldes se ocultarem como artistas usando elaborados trajes e maquiagem, lhes proporcionando um excelente, natural e plausível disfarce. Os membros da Ópera adotavam e eram conhecidos por seus “nomes artísticos”, o que servia para ocultar suas identidades secretas.

Quando Cheung Ng fundou a Companhia de Ópera ele se tornou conhecido como Taan Sau Ng – esse não era apenas um nome artístico, mas uma maliciosa declaração de sua destreza na aplicação da técnica deflexão / golpe do Wing Chun, Taan Sau.

Um fato importante para se notar é que tão desconfiados dos Manchus e seus espiões estavam essas sociedades secretas, que as verdadeiras identidades de seus líderes, membros e a verdadeira natureza de suas atividades era conhecida somente num círculo fechado dentro das sociedades. Assim, o genuíno conhecimento de Kung Fu era passado somente de um mestre para discípulos seletos e de confiança, assim protegiam a pureza e a origem do sistema.

 

Em conclusão

Com o desenvolvimento de muitas linhagens diferentes de Wing Chun através dos séculos (mais de 10 são conhecidas e documentadas), Wing Chun seria apenas um nome genérico para um sistema com muitas linhagens – não seria diferente do “Karate”, um termo genérico para descrever as várias artes japonesas – variadas, mas similar. Contudo, este artigo está focalizado em acender uma luz sobre as origens do Wing Chun. De fato, o mapa do desenvolvimento das varias linhagens requereria um livro inteiro. Uma completa análise histórica e política das origens e desenvolvimento do Wing Chun serão compiladas em um livro pelo Ving Tsun Museum e estará em breve disponível.

A hipótese que Cheung Ng foi de fato o herdeiro da arte do Templo do Sul e a força guia por trás do seu emprego como um completo sistema de treinamento e do combate para os rebeldes certamente detém muito mais peso histórico que a lenda de uma jovem garota. Isso representa uma explanação muito mais plausível das raízes do Wing Chun considerando-se a integridade e perfeição da arte em termos de total eficiência em combate. E também apresenta uma estreita ligação com o ambiente histórico do período que precedeu as viagens da Ópera do Barco Vermelho. Contudo, como todo estudo histórico, uma hipótese pode dar grande ímpeto para profundos estudos futuros que poderão dar surgimento a maiores revelações. Em resumo, maior estudo baseado na própria estrutura e atmosfera da verdadeira pesquisa histórica nos dará uma visão mais precisa da realidade. Tiramos o chapéu para a assessoria e pesquisadores do Ving Tsun Museum que fizeram suas próprias buscas dentro do domínio da investigação científica e nos dando um ponto inicial para pesquisas sérias.

Os Mitos são frequentemente criados para simplificar algo ou para dissimular a verdadeira natureza do sujeito que o torna mais agradável à mente. Consequentemente, algumas pessoas querem acreditar nos mitos a despeito das evidências científicas e históricas que os contradizem. Uma ficção pode ser mais confortável que a verdade; um conto de fadas pode ser mais fácil de se apegar que a estudos sérios. A lenda de Ng Mui e Yim Wing Chun é uma grande história, mas não é verdade.

Tendo consciência de que essa lenda foi contada por séculos, será difícil para alguns aceitarem a verdade em minutos, horas ou mesmo meses. Mas é bom lembrar que o estudo das artes marciais (Wing Chun em particular) é uma contínua busca pela verdade – verdade pessoal, verdade social, verdade espiritual – sim, verdade história.

Eu acredito que você tenha se deleitado com esses esclarecimentos sobre a verdadeira origem do Wing Chun.

***

:: Sobre os Autores: Sifu Benny Meng é o principal Fundador e Curador do Ving Tsun Museum. Ele viajou extensivamente através do mundo pesquisando as raízes da arte, estudando e treinando métodos e aplicações em quase todas as linhagens de Wing Chun Kung Fu conhecidas. Sifu Alfredo Delbrocco treina Wing Chun a mais de quinze anos, primeiro sob a orientação de Grão-Mestre William Cheung, depois com mestre Rick Spain. Hoje, ensina mais 350 alunos em seu Kwun em Brisbane. Sifu Alfredo recebeu em 1998 o prémio “ Australasian Blitz Kung Fu Instructor of the Year Award”. Sifu Alfredo pode ser contado pelo site WCKFO.

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Meng's Martial Arts Headquarter - Quartel General Mundial - liderada por Meste Benny Meng, que desde a década de 90 vem realizando um grande trabalho na reunificação da Tradições Culturais e Marciais do Mosteiro Shaolin do Sul, preservando os métodos de combate e Filosofia Chan Budista.

Hek Ki Boen Eng Chun Kun - [Black Flag Wing Chun] Quartel General Mundial da Black Flag Society (Sociedade Bandeira Preta), conduzida na América pelo Mestre Lin Xiang Fuk [4º Geração], que representa a última ligação com a tradição Cultural das artes marciais do Mosteiro Shaolin do Sul, preservando as tradições, métodos de combate e Filosofia Chan Budista.

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