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O Ambiente RevolucionÁrio dos Monges Guerreiros

Por Garrett Gee, Benny Meng e Richard Loewenhagen
Tradução: Alex Magnos (15/05/07)
Fonte:
Ving Tsun Museum
 

Na Vila Linshan no município de Xitianwei em Putian nas ruínas do Mosteiro Siu Lam do Sul, há uma pedra enterrada. Está encravada com caligrafia Chinesa proclamando que dois Monges Guerreiros, Yongqi e Jinqi, do Mosteiro de Linquanyuan, o nome original do Mosteiro Siu Lam do Sul, a enterraram em Setembro do Ano Jiayou da Dinastia Song.

A mera existência dessa evidência arqueológica dá lugar a três questões:
1 – O que é um Monge Guerreiro?
2 – Os “Monges Guerreiros” existiram através de toda a história Siu Lam (Shaolin)?
3 – Como e por que os Monges Guerreiros foram para Linshan na Província de Fujian?

 

1 – O que é um Monge Guerreiro?

Para responder a primeira questão, nós devemos começar notando que o termo “Monge” se refere especificamente a um monge Budista de Siu Lam (Shaolin). Havia monges lutadores de Siu Lam (Shaolin) que eram treinados como soldados. Os estudantes frequentemente notam o paradoxo entre uma defesa monástica de permanecer distante dos desejos mundanos e recusar-se a matar qualquer tipo de vida frente um desenvolvimento monástico de um soldado que ao mesmo tempo tomaria uma vida sem sequer pestanejar. Imaginam-se como essas duas situações poderiam coexistir.

Para explicar a existência dos Monges Guerreiros, nós necessitamos voltar à época dos primeiros habitantes do Mosteiro Siu Lam (Shaolin). A posição oficial do Mosteiro e dos historiadores do Governo Chinês de hoje é que os monges originais eram militares aposentados e barões de saques que procuravam viver o resto de suas vidas em um lugar tolerante com outros do mesmo tipo. Em outras palavras, o Mosteiro Siu Lam original possuía experiência de artes marciais desde seu início. Pouco tempo depois da criação do Mosteiro, a história empurrou o Mosteiro para o limiar militar, como se viu na história dos Treze Monges Guerreiros Bastoneiros que salvaram a vida do primeiro Imperador da Dinastia Tang. Durante a transição da Dinastia Sui para a Dinastia Tang (619 D.C.), Wang Shicong (uma general da Dinastia Sui que possuía aspiração Imperial para si mesmo) ocupou a cidade de Louyang como uma fortaleza para seu objetivo ganancioso. Em Setembro desse ano, o Imperador Li Shimin enviou um grande exército para sitiar a Cidade de Louyang. Neste ponto chave, Zhicao e Tangzong, dois Monges Guerreiros, iniciaram o levante contra Wang Shicong.

Eles capturaram Wang Renze, o primo do general velhaco. Zhicao e Tangzong, junto com outros monges, uniram-se ao exército de Li Shimin e ajudaram a convencer Wang Renze a fornecer assistência para derrotarem Wang Shicong. Seguindo a subseqüente vitória, Li Shimin unificou a China. Ele tanto apreciou a ajuda dos Monges Guerreiros de Siu Lam (Shaolin) que lhes garantiu um selo imperial em jade autorizando ao Mosteiro Siu Lam (Shaolin) organizar Monges Guerreiros. Dos Mosteiros que tiveram monges que praticavam artes marciais, esse foi o primeiro, e o único com sanção oficial do governo na história Chinesa para a criação monástica de Monges Guerreiros. Com esses fatos históricos, nós percebemos que o Imperador Tang Li Shimin elaborou o Mosteiro Shaolin para organizar um exército de monges, exatamente porque foram os monges que o ajudaram a estabelecer seu poder e poderiam ser necessários para ações similares no futuro. A partir daí os Monges Guerreiros de Siu Lam se tornaram uma “força especial” reservada para necessidades militares específicas. Isso explica a diferença entre os Mosteiros Siu Lam/Shaolin e os outros templos na China: Siu Lam/Shaoilin legalamente treinou um Exército de Monges que eram proficientes com Kung Fu e somente Siu Lam/Shaolin poderia legalmente manter um exército de Monges Guerreiros. Outros Templos Budistas não tinham o mesmo privilégio.

 

II – Os “Monges Guerreiros” existiram através de toda a história Siu Lam (Shaolin)?

Como indicado acima, a autorização para a criação de Monges Guerreiros veio diretamente do primeiro Imperador da Dinastia Tang. A inscrição de “Monges Guerreiros” na pedra esculpida em Putian foi feita durante a Dinastia Song mais de 300 anos depois.

Jiayou era o título imperial do Imperador Song Zhao Zhen que assumiu o controle 96 anos depois do Grande Imperador Song Zhao Kungyin (960 D.C.). Zhao Kungyin unificou a China de uma situação de regime separatista de senhores da guerra e estabeleceu a grande Dinastia Song. Isso foi muito benéfico para a prosperidade e crescimento do país e de suas culturas. A economia local e a política da Dinastia Song promoveram o desenvolvimento do Budismo. Em vez de oprimir os Budistas, a Dinastia os protegeu e os encorajou. Eles pararam o Confucionismo que buscavam a destruição dos Templos Budistas e suportaram o estudo de 157 Monges Budistas na Índia. Zhao Congcin, o Secretário do Imperador, foi pessoalmente para Chengdu para esculpir “As Grandes Escrituras Budistas”.  A disseminação e o desenvolvimento do Budismo foram expandidos. Muitos templos, incluindo os Mosteiros Siu Lam e Shaolin, foram beneficiados com essas novas políticas. Os Manuscritos do Shaolin Boxe diz que o Grande Imperador Song visitou o Mosteiro Shaolin e enviou famosos generais a Shaolin para ensinar os monges sobre a arte da guerra e ao mesmo tempo aprender as Artes Marciais Shaolin. Em essência, os militares e os Shaolin estavam aprendendo uns dos outros. O próprio Grande Imperador era também muito bom em Kung Fu (Boxe). Ele conhecia 32 movimentos do Boxe do Punho Longo. Os Anais das Artes Marciais dos Monges de Shaolin registra: “O Grande Imperador da Dinastia Song, Zhao Kungyin, sendo um grão-mestre de Kung Fu. Ele deu suporte ao abade chefe do Mosteiro Shaolin e ajudou a organizar três Competições Nacionais de Artes Marciais para monges, seus generais e expertos marciais populares”. Isso representa a primeria vez na história que um torneio de âmbito nacional combinou os talentos de Shaolin, dos militares e expertos marciais civis. No total, 18 sistemas formais se juntaram e competiram.  

O filho de Zhao Kungyin, Zhen Zong, continuou a proteger o Budismo e construiu 72 postos de adoração ao longo das estradas para a Capital e na própria Capital.  Ele incrementou o contingente de monges e monjas. Em 1021 D.C., o número de monges e monjas aumentou dramaticamente. Essa política permaneceu imutável por mais 34 anos. Por conseguinte, os Budistas dessa época não foram apenas totalmente protegidos, mas também aos Monges Guerreiros de Shaolin foram dados grandes responsabilidades e privilégios. “A História Song” registra que o Imperador chamava os Monges Guerreiros um “Exército de Vitória”. Esses fatos históricos provam que no Ano Jiayou da Dinastia Song, Monges Guerreiros não somente existiram, mas também ocuparam importantes posições na dinastia.

As palavras “Monge Guerreiro” foram também usadas na Dinastia Ming em um artigo intitulado “Os Anais do Conhecimento Diário”, escrito pro Gu Yanwu, um famoso estudioso daquele período. Durante esse mesmo período, Fumei, o famoso poeta da Dinastia Ming, escreveu um poema intitulado Passando pelo Mosteiro Shaolin, que descreve os monges Shaolin amplamente conhecidos por suas habilidades marciais e destacam que receberam muitas honras dos Imperadores do passado. Da mesma forma, um famoso calígrafo da Dinastia Ming escreveu uma obra bastante conhecida que reflete Observando as Artes Marciais em Shaolin.

O Grão Mestre da “Arte do Bastão Shaolin” durante a Dinastia Ming escreveu em seu diário, “Não existiam Monges Soldados nos Templos da China, exceto no Templo Shaolin, cuja mais importante tarefa era proteger seus templos.” Mais tarde, durante a Dinastia Qing, o Sr. Yang Zao também disse que se um monge soldado havia sido mencionado, eles estavam se referindo ao Mosteiro Shaolin. A partir dessas referências históricas, nós podemos deduzir que somente o Mosteiro Shaolin tinha Monges Guerreiros, ou os Monges Guerreiros só poderiam surgir dos Templos Shaolin.

III – Como e porque os Monges Guerreiros foram para a Vila Linshan?

O Templo Linquan Yan em Putian era considerado para ser o grande templo. De acordo com a inscrição na pedra, ele tinha mais de 20 construções como mais de 500 monges vivendo lá. Como e porque os Monges Soldados do Mosteiro Shaolin Songshan foram para Linquan Yan (mais tarde chamado de Mosteiro Shaolin do Sul) in Putian? A resposta é simples: Os Monges Shaolin viajaram extensivamente através de sua história. Para se entender essa prática, nós devemos determinar porque havia monges viajantes. Três razões chaves para monges viajantes foram confirmadas por historiadores chineses: 1) Ordem direta do Imperador para assistência militar dada pelos monges guerreiros; 2) Movimentos entre os Templos do Norte e do Sul por razões políticas; e, 3) Requerimento do Chan Budismo para experiência o que poderia somente ser obtido via viagens fora do Templo.

1 – Ordens diretas do Imperador para assistência militar dada pelos monges guerreiros.

O Mosteiro Shaolin do Sul era resultado final da resposta que os Monges Guerreiros do Mosteiro Shaolin do Norte deram a Ordem Imperial vinda do Imperado Tang , Li Shimin, que solicitava assistência. As incursões de Piratas na Província de Fujian desafiavam a estabilidade e a prosperidade no Sul da China e os monges guerreiros eram necessários para operações especiais. Três dos lendários Treze Monges Guerreiros Bastoneiros de Shaolin, Dao Guang, Seng Man e Seng Feng, conduziram aproximadamente 500 guerreiros para o sul no início do século VII E.C (Era Comum) para engajarem na batalha contra os piratas. Seus talentos especiais ajudaram os soldados Tang a derrotar os piratas. Muitos monges guerreiros tombaram durante a batalha costeira. Para homenagear os camaradas que tombaram, Dao Guang foi encarregado por Tan Zong, Grão Mestre do Mosteiro do Norte, para selecionar um local que refletisse a semelhança da montanha Songshan “Jiu Lian” e então estabelecer um Mosteiro Shaolin do Sul para celebrar seus irmãos que tombaram. Dao Guang selecionou o templo em Putian atender a essa tarefa. Tan Zong então o encarregou de rememorar seus ancestrais e espalhar a filosofia Chan Budismo nativa do Mosteiro Songshan. Esse tipo de desdobramento de monges guerreiros através da China é visto através de toda a história Dinástica. Por exemplo, em 1114 E.C, os Mongóis invadiram a China. O imperador chinês ordenou ao Mosteiro Shaolin despachar os Monges Soldados para contra atacar. Mais de 500 monges interceptaram o exército Mongol nas margens do Rio Amarelo. Eles não tiveram sucesso, mas a história registra que eles estavam lá atendendo a ordem do imperador.

2 – Movimentos entre Norte e Sul por razões políticas.

Durante a Dinastia Tang, um confronte surgiu sobre a seleção do 6º Patriarca do Chan Budismo. Sheng Hui declarou-se o 6º Patriarca e enfatizou o Budismo Ortodoxo com um forte traço de orientação Confucionista no Norte da China. O escolhido pelo 5º Patriarca, Hui Neng, fugiu para o sul onde seu Budismo com influência Taoísta floresceu. Finalmente, um subseqüente imperador Tang declarou a linhagem do Sul como a legítima sucessora que mais tarde serviu a propósitos políticos. Com essa declaração, as raízes do Chan Budismo deixaram o Norte da China. Jornadas do Norte para o Sul era esperadas. A natureza do Chan Budismo vista hoje é fundamentalmente uma fusão das culturas e pensamento Taoísta e Budista.

Outro exemplo documentado de movimentos políticos para o sul pode ser colhido em um incidente da bem documentada Dinastia Song. Um jovem chamado Haizhou escapou da carnificina imperial de sua família inteira escondendo-se no Mosteiro Shaolin do Norte. Ele se tornou um monge e aprendeu extensivo Shaolin Kung Fu durante uma década. Mais tarde o Imperador descobriu seu local de exílio, assim o forçou a fugir na penumbra para a segurança do Mosteiro Shaolin do Sul onde ele permaneceu.

Existem outros exemplos de movimentos de grande apelo político para o Sul como haste do confronto entre as Dinastias Ming e Qing. Quando os Qing consolidaram o controle do Norte da China 30 anos antes que o Sul da China caísse, muitos monges do Norte viajaram para o Templo do Sul para continuar a rebelião contra a conquista Qing.

3 – O requerimento do Chan Budismo por experiência que só poderia ser obtido via viagem fora do Templo.

Pela prática Budista, os monges tinham que viajar fora do Templo. Yongqi e Jinqi, cujos nomes são refletidos hoje em documentos da reconstrução do Templo Shaolin do Sul como creadores da pedra mencionada no parágrafo de abertura podem ter viajado para Putian por qualquer uma das razões acima citadas e decidiram ficar em Linquan Yuan.

A história do Chan Budismo claramente explica que depois do desenvolvimento do Budismo, os monges começam a conduzir-se a uma vide errante a fim de provar e expandir suas crenças. “A História de Fujian” diz que pelo final da Dinastia Tang, o Budismo tinha evoluído em cinco grupos: Yang Zong, Caodong Zong, Yunmen Zong, Linji Zong, Fayan Zong. A maioria deles foi fundada por Fujianeses. Em outras palavras, as raízes do Chan Budismo foram levadas para o Sul da China.

Por conseguinte, para prática dos Monges Shaolin, tomarem Fujian como seu destino para visitação seria bem natural. Dentre os cinco grupos mencionados acima, o fundador do Caodong Zong era especificamente de Putian, o local do Templo Shaolin do Sul. “Os Anais da Corte de Putian” registra que “Dan Zhang Huang veio para a Montanha Lingshi e se tornou um monge. Mais tarde ele mudou-se para a montanha Cao com um mone monástico de Bem Ji”. Por isso, afirmações de que os monges Shaolin do Grupo Caodong visitaram Putian são razoáveis.  

Dos exemplos acima, nós podemos concluir que desde a longínqua Dinastia Tang, muitos famosos monges do Templo Shaolin visitaram Linshan, Putian e alguns deles ficaram no local que acabou se tornando o Templo Shaolin do Sul.

Das informações acima nós podemos concluir que Linquan Yuan não era apenas um templo comum. Era um tempo de Artes Marciais Shaolin diretamente orientado pelos Monges Guerreiros de Shaolin. Ele se tornou um tipo de filial do Templo Shaolin de Songshan. A fim de diferenciá-los, nós chamamos o Templo Shaolin de Songshan de Shaolin do Norte e o Linquan Yuan como Shaolin do Sul. Depois de um tempo, as pessoas somente se lembram de Shaolin do Sul e esqueceram sobre Linquan Yuan, o local do nascimento do Shaolin do Sul. O governo Qing destruiu Linquan Yuan. A descoberta de suas ruínas e a subseqüente reconstrução está sendo descrita pelo governo da China como a mais significante descoberta arqueológica de toda a história das artes marciais e da filosofia da China. Isso é especificamente significante para as artes marciais dos sistemas mais populares no Ocidente que encontram suas origens no Templo Shaolin do Sul como o Wing Chun, Garça Branca, Louva a Deus do Sul, Boxe do Cinco Ancestrais, Dragão do Sul e Sobrancelha Branca.   

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:: Sobre os Autores: Sifu Benny Meng é o principal Fundador e Curador do Ving Tsun Museum. Ele viajou extensivamente através do mundo pesquisando as raízes da arte, estudando e treinando métodos e aplicações em quase todas as linhagens de Wing Chun Kung Fu conhecidas. Mathew Kwan é Discípulo da 9ª Geração Hung Fa Yi WIng Chun sob a tutela de Grão-Mestre Garrett em San Francisco, CA. Sifu Benny Meng pode ser contatado em www.vtmuseum.org.

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